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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Escutas telefônicas apontam a esquema de combinação de resultados na Copa do Brasil, Copa do Nordeste e Campeonato Brasileiro
Seis meses depois da Operação Cartola, em que a Polícia Civil e o Ministério Público da Paraíba, desbarataram um grande esquema de manipulação de resultados no Campeonato Paraibano, dirigentes de clubes e federação continuam sob a mira dos investigadores. O Esporte Espetacular teve acesso ao processo que tramita na 4ª Vara Criminal do estado e encontrou novas irregularidades que expandiram-se para outras competições e também para fora das quatro linhas do futebol.

No decorrer da investigação, nada menos que 105 mil ligações telefônicas de pessoas suspeitas foram gravadas, com autorização da justiça. Algumas delas indicam que os acusados teriam, inclusive, tentado exercer sua influência utilizando-se de uma suposta proximidade com políticos em todo o Brasil.

De acordo a investigação, o forte poder econômico do grupo que articulava resultados era outra ferramenta utilizada em irregularidades cometidas em favor do Botafogo-PB. Na Copa do Nordeste por exemplo, o time da Paraíba fazia parte do Grupo C, com Bahia, Náutico e Altos do Piauí. O Botafogo-PB chegou à última rodada da primeira fase na liderança de sua chave. Mas, se perdesse para o Bahia, e o Náutico vencesse o Altos-PI, poderia ser eliminado. Então, os dirigentes do clube vislumbraram a possibilidade de oferecer uma quantia para “motivar” os jogadores da equipe do Piauí, conduta conhecida como “mala branca”. O diálogo foi o seguinte:

BRENO: "A gente tem que mandar um incentivo pra ele".
ZEZINHO: "Exato, não tem outra saída não".
BRENO: "Tem que botar cinquenta mil lá pra eles, no mínimo".
ZEZINHO: "Eu tenho o telefone do presidente lá".

No dia seguinte, o então presidente do Botafogo-PB ligou para um homem, que a polícia acredita ser o presidente do Altos-PI, Warton Lacerda.

ZEZINHO: "Presidente? Presidente?"
WARTON: "Opa, como é que tá, Zezinho?"
ZEZINHO: "Eu vou ver aqui com o pessoal pra gente mandar aí alguma coisa pra vocês ganharem o jogo ou empatar".
WARTON: "Tá bom".
ZEZINHO: "Pra vocês tirarem ponto do Náutico, viu?"
WARTON: "Eu tô aqui à disposição. Nós vamos jogar como se fosse uma final esse jogo".
ZEZINHO: "A gente sabe que você trabalha de forma legal aí, vocês são corretos igual a gente. É verdade."

Como os dirigentes planejaram, o jogo entre Náutico e Altos acabou empatado por 2 a 2 e, com isso, o Botafogo avançou à fase seguinte da Copa do Nordeste.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) é claro ao tratar do assunto. O artigo 242 diz que dar ou prometer vantagem indevida a dirigente, técnico e atleta para influenciar o resultado da partida é uma conduta passiva de multa e eliminação de competições.

No curso da investigação, diversas fontes e partes envolvidas no processo relataram ter sofrido pressão política para atenuar o ímpeto da Operação Cartola. Alguns, inclusive, afirmam ter recebido ameaças. A Polícia Civil não fala mais sobre o assunto. Os inquéritos sobre a organização criminosa que tramitavam na Delegacia de Defraudações foram encerrados.

O Ministério Público ofereceu à Justiça três denúncias contra 27 pessoas. Por enquanto, não foram feitos pedidos de prisão, só de afastamento dos envolvidos das funções relacionadas ao futebol. As suspensões atingiram Breno, Zezinho e Amadeu. Neste mês, o Botafogo-PB elegeu um novo presidente, assim como a FPF. Procurado, o clube não quis se posicionar. Já a federação, por meio de nota, afirmou que está trabalhando para reestruturar a entidade, com o auxílio da CBF e que tem colaborado com a Polícia Civil e MP.

– O que acontece é que diversos materiais foram apreendidos - tanto no que diz respeito a documentos como eletrônicos. E esse material que foi apreendido, ainda está passivo de análise e a análise pode mostrar outras evidências, algumas evidências que a gente pode usar para agregar as denúncias já articuladas ou dar origem a outras investigações – disse o promotor do MP Rafael Linhares.

Na Justiça Desportiva, 17 pessoas foram denunciadas. O primeiro julgamento estava marcado para a última quarta-feira, mas os auditores da 3ª Comissão Disciplinar do STJD entenderam que não teriam competência para analisar o caso. Com isso, o presidente da entidade remeteu o processo ao Pleno, que é a última instância do tribunal. O julgamento está previsto para novembro.

No Maranhão

No Campeonato Brasileiro da série C de 2017, quando o Sampaio Corrêa nitidamente entregou o jogo para o corruptor Botafogo-PB, em que seus dirigentes são acusados pelo GAECO da Paraíba por combinação de resultados, compra de arbitragem e negociatas para beneficiar o clube. A 'Operação Cartola' ainda está em andamento.

Em relação ao jogo Sampaio Corrêa x Botafogo-PB, partida válida pela última rodada do Brasileiro 2017, não restou dúvidas que o presidente e deputado estadual, Sérgio Frota (PR), mantinha uma relação de negócios com o dirigente denunciado e afastado, do Botafogo, Breno Morais, que em grampo da Polícia Civil da Paraíba, gravou uma conversa entre o deputado Sérgio Frota e ele, claramente solicitando ao deputado uma intervenção sobre a arbitragem do jogo entre Botafogo-PB e Altos-PI, pela última rodada da fase de grupos da Copa do Nordeste.

No grampo, a intimidade do pedido de Breno ao deputado é mais do que evidente, na qual o deputado afirma que vai resolver o "problema". O resultado: o Botafogo venceu a partida por 1 a 0. O árbitro do jogo foi o maranhense, da cidade de Imperatriz, como o próprio deputado falou no grampo, Ranilton Oliveira. 

O deputado estadual Sérgio Frota (PR), não conseguiu a reeleição e o time do Sampaio Corrêa está praticamente rebaixado para a terceira divisão do Campeonato Brasileiro.


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